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Por Felipe Cruz e Gustavo Andrade
Com a colaboração de Hugo Vicunha e Tiago Bombonatti.

A sexta parte da série especial ‘Por dentro do quesito’ traz para você o processo de criação das histórias levadas pelas agremiações ao Sambódromo: o enredo. Para tratar desse assunto, nossa equipe foi recebida pelo carnavalesco Sidnei França, na quadra da Unidos de Vila Maria. Confira!

“Eu interpreto o quesito enredo como algo um tanto desvalorizado no senso comum. Muitas pessoas não sabem nem o que é enredo ou confundem enredo com samba-enredo. Ele é um dos quesitos mais estratégicos para se ganhar um Carnaval”, diz o carnavalesco da Unidos de Vila Maria, Sidnei França, que está à frente do enredo “Aparecida – A Rainha do Brasil: 300 anos de amor e fé no coração do povo brasileiro”, apresentado este ano.

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Para Sidnei, o primeiro papel do enredo é ganhar a própria comunidade, de dentro para fora, e depois o grande público. Ilustrado visualmente pelas alegorias e fantasias, ele tem que atender aos anseios da escola, sua identidade. Depois de deixar a agremiação satisfeita com a forma proposta de contar o tema, vem o trabalho de conquistar os jurados. Por isso, ele também lembra, é muito importante construir uma boa argumentação que mostre coerência entre o assunto que foi escolhido e a forma com que foi desenvolvido. “O enredo é a ação que conta, com começo, meio e fim, a história que será mostrada no dia do desfile”, explica.

O carnavalesco faz um alerta: é preciso ter cuidado ao relacionar as questões visuais (alegorias e fantasias) com as que são contextuais (o lado poético, o samba). Ele afirma que a escola tem de saber explorar, já na sinopse, a forma de apresentar a ideia. “Neste Carnaval da Vila Maria, a diretoria veio até mim e disse que dois anos antes da minha chegada, o tema já estava definido: os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Eu teria várias possibilidades, mas não poderia deixar de lado alguns elementos históricos, por exemplo, como a imagem foi achada, como aquela imagem pequena e de barro tão simples e frágil se tornou um fenômeno de fé e identidade nacional”, conta. Reunindo os aspectos históricos, ele pretende atingir o emocional do público.

Um samba em forma de oração

“Quando eu fiz a explanação do enredo, mostrei que o samba teria de ser uma oração, porque temos que dirigir esta mensagem à santa, ora pedindo ora agradecendo, que é a prática de qualquer promessa ou graça após ser alcançada”. (Sidnei França).

Um samba mais cadenciado, capaz de provocar o entendimento das pessoas é o que Sidnei promete para este Carnaval. Segundo disse, o enredo precisa caminhar dentro da escola e retirar dos componentes o melhor que puder: do compositor, com a poesia; da bateria, com o andamento próprio; das fantasias, das alegorias, até mesmo da evolução e harmonia. “Se você pegar a sinopse deste ano, verá que há duas palavras-chave que a Vila Maria usa há muito tempo: ‘um caso de amor e devoção’. Você mexe com o emocional, quando alinha a história que está sendo contada a coisas que ela sempre cantou. É preciso ter sinergia para criar uma identificação”, afirma.

O trabalho do carnavalesco

Sidnei mostra que longe de ser um trabalho à parte, o carnavalesco deve acompanhar toda a preparação e execução do desfile, defender a ideia, explicar cada personagem, se reunir com os departamentos. “O enredo é muito mais que simplesmente escrever um texto que vai nortear o desfile. Esse texto tem que ter intenção, saídas para chegar ao seu objetivo: um Carnaval impactante e arrebatador, porque quando a escola está feliz com o que está fazendo, é bem mais fácil convencer a arquibancada, os telespectadores e jurados”, ressalta.

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As alegorias como um “virar de páginas”

Hoje, a Liga SP recomenda que o enredo seja dividido em cinco setores, representados pelos carros alegóricos. A forma de fazer o público compreendê-lo é, conforme Sidnei, usar a alegoria ou no início ou no fim da história. “Eu, particularmente, gosto de encerrar cada setor na alegoria. Porque alegoria é um momento de verticalidade muito grande. Você tem muitos componentes, daqui a pouco, um carro. Gosto que os argumentos venham espalhados no chão, num plano horizontal – casais, comissão de frente, ala das baianas -, e depois aquilo se verticaliza. É como se o carro representasse um virar de páginas”, explica.

Do papel à realidade

“Nos meus enredos, primeiro vem o visual, para depois vir a sinopse. Quando eu faço o enredo, já o imaginei e posso colocá-lo em palavras”.

A proposta de Sidnei é fazer com que as pessoas assistam ao desfile sem precisar de um manual de instruções. Para facilitar o entendimento, ele utiliza elementos visuais muito claros e concretos, e defende que é preciso criar um significado ao público e aos jurados, sem abrir espaço a dúvidas. “Eu quero ir além. Quero que a pessoa olhe e fale: ‘- Eu me enxergo ali. Eu vivi isso”. Por exemplo, haverá o carro dos milagres e um dos objetivos é criar uma identificação com quem já fez promessas”, revela.

O acompanhamento deve ser contínuo

“Não posso pensar que depois de pronto o enredo, a responsabilidade é da escola, começar a terceirizar. É um trabalho contínuo, diário”.

Depois de pensar nos símbolos e nas mensagens transmitidas durante o desfile, o carnavalesco pensa na coerência cronológica. “Em 2017, o enredo da Vila Maria conta os 300 anos de um fenômeno religioso. Eu conto que a imagem foi descoberta em 1717 num rio, seu culto se espalhou primeiramente por aquela região do Vale do Paraíba, depois a princesa Isabel fez uma promessa para ter fertilidade, e após ter sido atendida, entregou-lhe o manto e a coroa, até chegar aos nossos dias”, comenta. Garantir a ordem cronológica é garantir a argumentação sequenciada dos elementos.

Por último, vem o trabalho de zelar para que, no dia do desfile, a montagem esteja correta. “Eu tenho que me aliar com a harmonia da escola, participar de várias reuniões, em que eles entendam o desfile, e eu justifique o porquê de cada coisa. Se faltar um destaque num carro alegórico, eu não posso deixá-lo vazio. Eu vou pegar alguém de outra ala, que transmita uma mensagem parecida. Mas isso não é feito no Anhembi, em cima da hora. Isso é feito aqui na escola”.

Sobre a rotina, Sidnei conta que chega cedo ao barracão, verifica o andamento de cada detalhe e aponta as melhorias a serem feitas. Como exemplo, ele fala da terceira alegoria, que precisou ter a expressão modificada. “A escola tem o custo do bloco de isopor, do salário do escultor e eu vou olhar depois de pronto e falar: ‘- Ah, eu não gostei, mude’? Eu tenho que fazer isso na hora!”.

É preciso muita pesquisa!

Com o apoio da Arquidiocese de São Paulo que, pela primeira vez na história do Carnaval, assinou um termo de ciência e acompanhamento do processo, Sidnei teve de fazer um cruzamento de informações e apurar cada fato para desenvolver o enredo. Sobre o apoio recebido, ele diz que no samba-enredo havia a palavra “louvando”, mas como santos são venerados e apenas Deus pode ser louvado, o texto foi modificado a pedido de um padre, numa das eliminatórias. O carnavalesco também contou com diversas fontes de pesquisa como Internet, o Santuário Nacional, o museu de cera, em Aparecida, o museu historiográfico, da mesma cidade, para garantir seu embasamento.

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Como elaborar um bom enredo

Na opinião do artista, um bom enredo pode ser o que agrade ao público, como também aquele que a princípio pode não ser atraente, mas a escola deu uma roupagem que faça com que ele ganhe uma nova dimensão.
Em uma viagem a quinze anos atrás, ele acredita que os enredos mais antigos eram mais ingênuos e hoje estão mais comerciais. “Isso acaba deixando tudo mais mecânico. Mas não dá para criticar, é o rumo que o mundo tomou, e o Carnaval é o microcosmo do mundo e absorve pontos negativos e positivos da nossa cultura. Eu acho que os enredos deram uma empobrecida de uns quinze anos para cá. A sociedade mudou, por que o Carnaval não mudaria?”, questiona.

A importância da pasta de jurados

“Ela é um material encadernado onde a escola descreve todo o desfile. Há uma para cada tipo de quesito, de acordo com as informações que o jurado precisa saber”.

Uma parte que poucas pessoas sabem que existe, e que compõe o trabalho de um carnavalesco, é a criação da pasta de jurados. Por regulamento, hoje, todas as escolas devem apresentar esse documento aos jurados, dez dias antes do desfile. “A pasta é um material encadernado onde a escola descreve todo o desfile. Há uma para cada tipo de quesito, de acordo com as informações que o jurado precisa saber e a razão de cada detalhe existir. Ela não é a mesma sinopse que enviamos ao compositor. Hoje é muito nítido ver escolas que não preparam uma boa pasta e se complicam nas apurações. Se tudo não estiver bem fundamentado, o jurado não é obrigado a entender”, lembra.

Cada quesito tem recomendações definidas pela Liga SP. No caso do enredo, é preciso anexar a letra do samba, a ordem do desfile e a sinopse. Já em se tratando de mestre-sala e porta-bandeira, deve aparecer a disposição do casal no desfile e a foto do pavilhão. “Eu vou assistir a uma novela de cinco capítulos, mas alguns autores conseguem criar uma história impactante e extraordinária, outros nem tanto”, conclui.

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2 Comments

  1. Divina e Rica essa Reportagem, todos deveriam ler … me surpreendo a cada dia …. ! AVANTE VILA

    1. Sidnei como sempre dando aula de como se faz um trabalho bem feito..parabens

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