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Na tarde deste sábado (31) a sua escola de samba Dragões da Real lançou seu enredo para 2020. O projeto foi apresentado na quadra social e a direção apresentou a sinopse.

Leia a seguir:

“Depois de o Deus rir, nasceram os sete deuses que governam o mundo…
Quando ele rompeu às gargalhadas, surgiu a luz!
Gargalhou segunda vez, e tudo foram águas!
À terceira gargalhada, apareceu Hermes;
à quarta, a geração;
à quinta, o destino;
à sexta o tempo.
Depois, antes do sétimo riso, o Deus inspirou fortemente, mas tanto riu que até chorou, e das suas lágrimas nasceu a alma…”

Papiro de Leyde (Século III)

E riu-se Deus… e de Sua gargalhada primordial brotaram sete criações divinas que passaram a reger o universo. Esta outra versão do Gênesis a partir de um Big Bang cósmico e cômico, revelada no papiro alquímico de Leyde (Século III), põe-nos diante de uma nova perspectiva: a potência revolucionária do riso. Por meio dele, podemos subverter a ordem das coisas, virar tudo de pernas pro ar, mudar a percepção do que há em nossa volta. Rir é consagrar nossa melhor face às divindades. É a dádiva alcançada pela aventura de viver!
Se “no princípio era o riso”, a arte de gargalhar se tornou também um meio poderoso de brincar com a realidade. Assim, surge a “comédia”, representação cênica que deriva dekômos ou komoidia, termos ligados a festas, aos desvairados cortejos de Dionísio. O Deus da alegria incontida dava aos seus discípulos a chance de subverter o mundo, proporcionando o sonho, a galhofa e a liberdade de serem o que quisessem. As lupercais e as saturnais, por sua vez, eram festivais de risos em Roma que burlavam a ordem social estabelecida no mais poderoso império da humanidade, que, no apogeu de suas conquistas, passava a gargalhar de si mesmo.
Se aos deuses o riso tinha uma potência mística, aos mortais propiciava uma outra forma de encarar tudo o que acontecia sobre a face da Terra. Desta forma, mesmo na Europa medieval, onde a sisudez e a contrição dominavam, a sátira se apresentou como um impertinente contraponto ao meio de vida austero na corte. Bobos, bufões e irônicas cantorias nas tavernas faziam parte do cardápio de gozações que garantiam o riso, ato não muito bem visto em épocas de domínio soberano da Igreja sobre a sociedade feudal. No Renascimento, a volta da razão humana ao centro das coisas virou tudo pelo avesso com as comédias de costumes de Molière e a visão irônica de Shakespeare sobre a sociedade da época. No mundo em revoluções, da francesa à industrial, charges colocavam as peripécias da realeza empoada e da elite abastada no devido lugar do ridículo.
E ao falarmos de “humor em tempos de cólera”, chegamos ao período em que o riso se assombrou. Os “donos do mundo” não escaparam do olhar mordaz de artistas como Charles Chaplin, em “O Grande Ditador”, uma crítica ácida em uma era na qual o planeta ainda respirava os ares da loucura totalitária. Nos anos de censura no Brasil, “Alegria, Alegria” se camuflava nas “receitas de bolo” que vinham estampadas nos jornais no lugar de matérias críticas ao regime vigente no então Brasil golpeado. Correndo “riscos”, os “heróis da resistência” montavam suas trincheiras armados de pincel e nanquim. Henfil, Millôr, Jaguar, Ziraldo, entre tantos outros “traçaram” as linhas de frente nas folhas pálidas dos “pasquins”.
Mas chegou enfim a hora de afastar o “cale-se” da mordaça e pintar o rosto com as tintas da alegria. Se só a arte expulsa coisas ruins das pessoas, ela é, mais que tudo, capaz de virar o jogo. A revolução pelo riso se dá ao transformar o nosso interior, dando o fora na tristeza, espantado o desamor, colorindo a vida e curando o baixo astral. Crise? Só se for de riso! Chorar? Só se for de tanto rir! Na nossa escola, conhecida por reunir gente feliz, cada componente é um artista com a inadiável missão de espalhar felicidade. Que sejamos doutores de todas as alegrias nesta lúdica terapia coletiva carnavalesca.
Há vinte carnavais temos aprendido que a verdadeira felicidade só tem sentido se for compartilhada. Por isso, VAMOS BUSCAR o nosso sonho, acreditando na fantasia de que, pelo menos por uma noite, o universo é governado pelo poder supremo do riso. Afinal, se Deus criou tudo ao nosso redor a partir do ato de gargalhar, é porque não há nada mais revolucionário, belo e divino que o milagre da ALEGRIA.

Mauro Quintaes
Carnavalesco da Dragões da Real

 

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