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Por Felipe Cruz e Gustavo Andrade
Com a colaboração de Hugo Vicunha e Tiago Bombonatti

O sétimo capítulo da série ‘Por dentro do quesito’ traz ao leitor do Amantes o processo de criação de um dos segmentos mais admirados em um desfile de escola de samba, o casal de mestre-sala e porta-bandeira. E, para conhecer o desenvolvimento deste setor, nossos repórteres foram até a quadra da Dragões da Real para conversar com Rubens de Castro e Evelyn Silva, dupla responsável por ostentar o pavilhão oficial da Dragões da Real em 2017.

“Temos que ostentar o símbolo máximo da escola: ela é a rainha da agremiação, ele faz a sala para ela e também a todos que estão a sua volta. É lindo ver o público venerar o pavilhão, isso mostra paixão”, comenta Castro. Este ano a Dragões desfila pelo Grupo Especial com uma homenagem à canção “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga.

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De acordo com o apresentador do casal, Valdo dos Santos, a preparação da dupla requer o trabalho de um ano. Após o último Carnaval, a escola decide se eles continuam na posição. É feita uma reunião com a direção da entidade e decide-se a permanência. Se eles continuarem, na semana seguinte voltam ao trabalho, comparecendo em festas e eventos dentro e fora da sede social.

Evelyn assumiu o posto de primeira porta-bandeira da Dragões no dia 18 de março de 2016. A jovem, de apenas 18 anos, estará ao lado de um dos mestres-salas mais experientes do Carnaval de São Paulo, que, com 42 anos de idade, acumula passagens por diversas agremiações. “Somos um casal que mescla juventude com maturidade. O casal encontro de gerações”, brinca Evelyn.

A função dos casais na avenida

Rubens revela que são obrigatórios o primeiro, oficial, e o segundo, de enredo. Os demais casais não são avaliados e a agremiação pode trazer quantos quiser. As coreografias são diferentes, mas cada um com seu estilo. A direção da escola é que define a posição das duplas.

A porta-bandeira deve fazer giros no sentido horário e anti-horário e ostentar o pavilhão com elegância. O casal não se curva para ninguém. São o rei e a rainha da escola. O mestre-sala consiste no cortejo e na proteção da porta-bandeira e do pavilhão. Ele encena o beija-flor e faz a proteção. Jamais esquecendo a postura e o sincronismo.

Ambos param juntos e não sambam, apenas bailam, durante toda a passarela. Ele deve ter o malandreado, trabalho de perna, mas não ajoelha no chão. Outro cuidado muito importante é o choque corporal, que pode danificar a roupa da porta-bandeira. Rubens fala que a delicadeza no olhar e nos gestos são fundamentais.

“Expressão facial é fundamental. O sorriso é automático, ele deve continuar no rosto, mesmo sem música”, afirma Evelyn.

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A coreografia

Na Dragões, o casal é quem cria a coreografia, que é definida após 4 ou 5 ensaios. Em seguida, o apresentador entra em cena para fazer as possíveis correções e ‘limpeza’ no bailado. Corrigem-se os passos que não se adaptam ao entrosamento da dupla com o samba. “Fazemos gravações, do alto das arquibancadas, obtendo a mesma visão que o jurado tem. O ângulo é diferente”, comenta.

Outra modalidade, de acordo com Evelyn, é o treino com a fantasia, pois a roupa pode influenciar na movimentação durante a dança. “Tem gesto que fica bonito, mas com a fantasia já não fica tão legal devido ao peso e demais adereços. Dependendo o tamanho, acaba tirando a elegância e a postura. Temos que adequar a coreografia a ela”, comenta. Se a fantasia for muito quente, eles realizam ensaios em dias ensolarados.

Os ensaios pré-Carnaval

A dupla disse que consegue folgas apenas nas terças, sextas e domingos, por enquanto. Na segunda e quarta-feira, os treinos acontecem no sambódromo e o restante dos dias eles ensaiam na ‘caverna do dragão’. Os dois realizam a coreografia oficial em todos os ensaios, até o dia do desfile.

Para aguentar a maratona de treinos e a apresentação oficial, Rubens vai à academia todos os dias, já Evelyn realiza um trabalho voltado ao fortalecimento de pernas e faz corrida. Ambos precisam, também, de uma alimentação balanceada, principalmente nos meses que antecedem o Carnaval. “São muitos treinos, que exigem dedicação. Temos que ter comprometimento e cuidados”, afirma Rubens.

O apresentador

O apresentador do casal é um treinador. Na Dragões ele é visto como um ‘Bernadinho’, às vezes meio agressivo, mas é um profissional dedicado e faz tudo para conseguir a nota dez para o primeiro casal da entidade.

Em conversa com nossa equipe, Valdo dos Santos fala sobre seu papel à frente do quesito. “O apresentador limpa o chão, verifica se o vento pode atrapalhar o desempenho da dupla, vê a aproximação de um cinegrafista ou fotógrafo e fiscaliza a movimentação da escola na frente e atrás. Ele presta atenção no sorriso do casal e observa a coreografia”, conta.

A comunicação entre os três é feita pelo olhar ou por pequenos gestos. Não existe comunicação verbal. Para facilitar esse procedimento, Valdo destaca a importância da afinidade.

O casal como peça-chave do desfile

O trio faz um alerta sobre as escolas de samba que posicionam o primeiro casal na abertura do desfile, visando um planejamento estratégico para o quesito evolução. Para eles, os diretores estão interessados em retirar rapidamente a dupla da avenida por conta da responsabilidade de conquistar, sozinhos, quatro notas. Por isso, os colocam no primeiro setor.

“Deve-se tomar um cuidado, pois, nesse caso, estamos juntos de três quesitos importantes: comissão de frente, alegoria e evolução. Se a agremiação não estiver bem ensaiada para manusear esses segmentos, logo perderá pontos importantes no começo de sua apresentação” comenta Rubens.

O dia do desfile

A montagem da fantasia é feita com até 5 horas de antecedência. São feitos testes para ver possíveis ocorrências nos adereços. “Temos que ver se não está soltando nada. É um trabalho demorado para montar. A equipe do ateliê contratado também auxilia”, comenta Valdo.

Improvisos na concentração

Em caso de eventualidades, que comprometam a apresentação do primeiro casal, a agremiação tem um ‘plano b’. Nesta situação, os outros casais, segundo e terceiro, devem estar preparados para assumirem o posto do primeiro. Esse tipo de alerta já é repassado a eles durante o ano todo. O jurado de mestre-sala e porta-bandeira é quem avalia a integridade da fantasia dos dois.

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