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O legado de Mário Sérgio no Carnaval de São Paulo

Bacharel em Economia e Educação Física, Mário Sérgio Ferreira Brochado, tem uma importante história na Música Popular Brasileira e também no Carnaval de São Paulo. Antes de integrar o grupo Fundo de Quintal, no final da década de 70, ele começou a fazer parte da Ala de Compositores da tradicional escola de samba Vai-Vai. Sérgio gostava de ser chamado de ‘componente da escola’ e ficou nela até 2016.

Mário chegava à quadra de bicicleta, com seu banjo nas costas, traje engraçado e muita irreverência.

Em 1983 foi membro do grupo “Poeira Pura”, integrado por compositores da alvinegra e liderado por Fernando Penteado. Neste ano ele participou e venceu o concurso de samba-enredo que elegeu o hino para o ano seguinte, 1984, com o enredo “Ao Sol da Onça Caetana ou Miragens do Sertão”. A parceria era formada por ele, Penteado, Tadeu da Mazzei, Elisbão do Cavaco e Jacó.

Ouça o samba de 1984:

Veja a Letra

Veja a Letra

Irradiante de alegria
Vai vai chegou

Traz o nordeste como tema
Exaltando em poema
Miragens do sertão

Cenário marcado pela tristeza
Mas é sublime a nobreza
Do povo do lugar

Desafiando o sofrimento
O seu canto é lamento
É sorrir pra não chorar
Reina a onça caetana
Reina assombração
Surge o carcará malvado
Acauá canta é verão

A esperança é dom sebastião
É divindade, é fé, é procissão
Que a chuva caia
Para verdejar os campos
No esplendor do meu sertão
Nesse dia o arauto vai tocar
Anunciando que este
Chão vai virar mar
É a consagração
Glória do povo sertanejo

Voa contente arribaçã, ô, ô
Floreceu o meu sertão
Puxa o fole sanfoneiro
Firma o verso cantador

Olê olê, elê olá
É tempo bom
Vamos sorrir
Vamos cantar

Em 1986 Mário Sérgio voltou a competir nas eliminatórias, mas não venceu. O enredo era “Do Jeito que a gente gosta”. Foi um dos primeiros cavaquinistas oficiais da Vai-Vai na avenida.

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Nos anos seguintes continuou na ala, mas não disputou. Acompanhava pelo Brasil diversos artistas populares, entre eles; Jovelina Pérola Negra, Almir Guineto, Zeca Pagodinho, Marcal, Beth Carvalho e outros.

Nesta década de 80 a Ala de Compositores da Vai-Vai possuía um rígido sistema para escolha de seus componentes e de suas obras. A pessoa responsável pela avaliação das canções era escolhida por meio de indicação, nesse período Mário Sérgio foi um dos indicados. Ele realizava entrevistas e orientava os novos membros.

A ala também promovia uma espécie de estágio obrigatório para novos compositores, esse estágio surgiu nos anos 70 e permaneceu até meados da década de 90. Outra atividade praticada era a “Sabatina do Samba”, onde os compositores deveriam chegar à quadra no domingo às 14h e entregar, em 1 hora, um samba de quadra que estivesse acordo com um tema proposto. No final da tarde era feita a escolha da composição campeã.

Em 1989 Mário Sérgio venceu a última etapa dessa competição com o tema “Chuva de Verão”, sempre respeitado e reconhecido pela expertise e prestatividade. Na época, os colegas de ala lhe deram a fama de radical e ‘cruel’.

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Em 1990 o artista começou a fazer parte do grupo Fundo de Quintal e seu talento o tornou vocalista no ano seguinte.

Em 1991 concorreu mais uma vez no concurso de samba da agremiação, junto a Borrão, para o enredo “O negro em forma de arte”, mas por conta de uma longa viagem aos Estados Unidos, junto a um grupo de shows de Carnaval, Mário não participou das etapas da competição e acabou tendo seu samba desclassificado. O intérprete chamado “Sol” foi responsável pela apresentação da obra na quadra.

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Algumas vezes Mário Sérgio saia dos ensaios da Saracura, por volta das 16h, e se encontrava com amigos, no bairro da Vila Madalena, no bar “Buru”, para organizar uma roda de samba.

O “Buru” era freqüentado por Jovelina, Reinaldo, Jorge Aragão e alguns membros do grupo de samba Fundo de Quintal. Outro local visitado por Sérgio era o “Butecão” na Rua da Consolação, mais um ponto de encontro com vários sambistas.

A amizade entre os membros do “Buru” e do “Butecão” resultou no surgimento de uma ideologia que defendia a união entre as alas de compositores, fato que não ocorria anteriormente. Eles passaram então a visitar as quadras e ganharam reconhecimento pelo feito. Essa integração aproximou poetas de diversas agremiações de São Paulo.

Apelidado de beijoqueiro e dono da gíria “Sou seu Fã”, Mário Sérgio fazia parte do Bloco Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro, e trazia de lá diversas músicas e ideias para composições.

Ele era apaixonado pela Vai-Vai, vinculou seu nome à entidade e citava a agremiação por onde passava. A escola é mencionada na canção “Não quero saber mais dela”, composta por Almir Guineto e cantada pelo grupo onde era vocalista, Fundo de Quintal.

No dia 29 de Maio de 2016 o mundo do samba perdeu Mário Sérgio, aos 58 anos, importante nome da Música Popular Brasileira. Hoje o mundo do samba agradece sua colaboração e canta em uma só voz: ‘Valeu por você existir, amigo’.

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Ouça o depoimento de Fernando Penteado, atual diretor geral de harmonia da Vai-Vai, falando sobre o legado de Mário Sérgio na escola:

Colaboraram para essa reportagem:
Ideia e pesquisa: Jornalista Felipe Cruz
Dados, fotos e depoimentos: Ademir da Silva, compositor, membro da velha-guarda musical da Vai-Vai, 31 anos de escola.
Dados, fotos e depoimentos: Fernando Penteado, diretor geral de harmonia da escola de samba Vai-Vai.
Arte: Tiago Bombonatti

Sobre Felipe Cruz

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Jornalista responsável e editor chefe do site Amantes do Carnaval de São Paulo. (MTB 63803).

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